{"id":34075,"date":"2019-06-06T11:15:50","date_gmt":"2019-06-06T10:15:50","guid":{"rendered":"https:\/\/travindy.com\/?p=34075"},"modified":"2020-07-15T13:31:56","modified_gmt":"2020-07-15T12:31:56","slug":"visitar-ou-nao-visitar-o-impacto-do-turismo-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/travindy.com\/news\/2019\/06\/visitar-ou-nao-visitar-o-impacto-do-turismo-indigena\/","title":{"rendered":"Visitar ou n\u00e3o visitar \u2013 o impacto do turismo ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"\n\t<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o para o Portugu\u00eas por Gustav<\/em>o Pinto<\/p>\n<p>Durante a \u00faltima d\u00e9cada, as viagens de aventura deixaram de ser menos sobre a adrenalina e mais sobre aprendizado de outras culturas e transforma\u00e7\u00e3o pessoal. O turismo ind\u00edgena, tamb\u00e9m conhecido como turismo \u00e9tnico ou tribal, tem sido uma tend\u00eancia particularmente crescente.<\/p>\n<p>Para viajantes interessados \u200b\u200bem uma intera\u00e7\u00e3o significativa com outras culturas, esses programas podem ser muito gratificantes. No entanto, com o aumento r\u00e1pido do volume de visitantes, foram levantadas quest\u00f5es sobre se \u00e9 \u00e9tico visitar as comunidades ind\u00edgenas e quais as consequ\u00eancias que isso representa para a preserva\u00e7\u00e3o dos estilos de vida e tradi\u00e7\u00f5es nativas.<\/p>\n<p>O turismo ind\u00edgena \u00e9 uma &#8220;atividade de turismo na qual os povos ind\u00edgenas est\u00e3o diretamente envolvidos, seja pelo controle e \/ ou por terem sua cultura como a ess\u00eancia da atra\u00e7\u00e3o&#8221;. Hoje em dia, voc\u00ea n\u00e3o precisa procurar muito por operadoras de turismo e ag\u00eancias de viagens que ofere\u00e7am visitas a comunidades ind\u00edgenas, com meios de transporte cheios de estrangeiros que s\u00e3o levados a visitar nativos em suas reservas ou aldeias.<\/p>\n<p>Idealmente, os locais devem ser capazes de afirmar algum grau de controle em rela\u00e7\u00e3o ao seu envolvimento com o turismo e devem obter claros benef\u00edcios econ\u00f4micos disso. Infelizmente, na pr\u00e1tica, muitas vezes, a menor parte da renda gerada a partir da atividade tur\u00edstica permanece nas comunidades. H\u00e1 evid\u00eancias crescentes de que as tribos est\u00e3o sendo exploradas por aqueles chamados operadores tur\u00edsticos que buscam lucros r\u00e1pidos e f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es surgem tamb\u00e9m porque, em muitos casos, os visitantes somente esperam por aquela \u201cfotografia perfeita\u201d ao inv\u00e9s da genu\u00edna imers\u00e3o cultural e engajamento comunit\u00e1rio. Cr\u00edticos descrevem algumas visitas a comunidades ind\u00edgenas como &#8220;zool\u00f3gicos humanos&#8221;, onde os sujeitos s\u00e3o essencialmente levados a permanecerem em suas aldeias contra sua vontade e obrigados a usar roupas tradicionais e sorrir para fotos. Sua cultura sofre e sobra pouco tempo para sua vida corriqueira e costumes atuais. Seus vestidos e produtos est\u00e3o em exposi\u00e7\u00e3o para os turistas, mas na realidade o seu modo de vida, em muitos casos, est\u00e3o h\u00e1 muito tempo desaparecidos.<\/p>\n<p>Este pode ser o caso da comunidade Padaung (Karen), conhecidos pelo pesco\u00e7o longo, perto de Chiang Mai, no norte da Tail\u00e2ndia, que faz parte do que \u00e9 conhecido como \u2018<em>Thai Hill Tribes\u2019<\/em>. O aumento do turismo \u00e9tnico tem sido enorme. Tanto \u00e9 assim que \u00e9 quase imposs\u00edvel encontrar pessoas \u201caut\u00eanticas\u201d de Padaung que estejam adornando seus pesco\u00e7os com an\u00e9is de metal porque seus antepassados \u200b\u200bfizeram isso \u2013 hoje normalmente o fazem porque sabem que v\u00e3o lucrar com isso. Al\u00e9m disso, enquanto as mulheres Padaung e as crian\u00e7as da aldeia vendem artesanato e posam para os turistas durante todo o dia, os homens na maioria dos casos n\u00e3o trabalham. Muitas vezes negligenciaram suas tradi\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e as taxas de desemprego entre eles podem chegar a 90%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Zool\u00f3gicos humanos&#8221;, ou &#8220;saf\u00e1ris humanos&#8221;, como s\u00e3o chamados em \u00e1reas mais remotas, s\u00e3o uma preocupa\u00e7\u00e3o crescente em lugares como o Peru, onde operadores tur\u00edsticos inescrupulosos est\u00e3o lucrando com a explora\u00e7\u00e3o de tribos ind\u00edgenas na selva amaz\u00f4nica. \u00c0 medida que o turismo aumenta em torno da Reserva da Biosfera de Man\u00fa, perto de Cuzco, o mesmo acontece com o n\u00famero de avistamentos relatados do Mashco-Piro &#8211; uma das cerca de 15 tribos isoladas no Peru e uma das 100 que restam no mundo. Isso \u00e9 particularmente preocupante, j\u00e1 que qualquer tentativa de contato com essa tribo pode ter consequ\u00eancias graves &#8211; um simples resfriado (sua imunidade difere da &#8220;ocidental&#8221;) poderia colocar uma tribo inteira em perigo.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o est\u00e1 sozinha na luta. As operadoras de turismo das Ilhas Andaman, na \u00cdndia, est\u00e3o oferecendo &#8220;saf\u00e1ris humanos&#8221; dentro da reserva de uma tribo Jarawa recentemente contatada, apesar das promessas do governo de proibir a pr\u00e1tica. Turistas das Ilhas Andaman, na \u00cdndia, est\u00e3o usando uma estrada ilegal para entrar na reserva da tribo Jarawa na esperan\u00e7a de &#8220;avistar&#8221; membros da tribo &#8211; n\u00e3o muito diferente de avistar animais selvagens em um saf\u00e1ri\u2026 A Survival International enviou um e-mail para o governo indiano pedindo-lhes para fechar a estrada e parar os &#8216;safaris humanos&#8217;.<\/p>\n<p>Por outro lado, alguns argumentam que o turismo \u00e9tnico ajudou a promover uma maior conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os povos ind\u00edgenas, muitos dos quais enfrentam opress\u00e3o, realoca\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de terras e desafios \u00e0 integra\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica. O afluxo de turistas tamb\u00e9m permitiu o florescimento das artes tribais tradicionais e do artesanato, o que muitas vezes significa uma fonte de renda adicional &#8211; ou a \u00fanica &#8211; para a comunidade. As intrincadas m\u00e1scaras feitas \u00e0 m\u00e3o do povo costarriquenho Boruca, por exemplo, ganharam fama internacional e facilitaram n\u00e3o apenas a autoconfian\u00e7a econ\u00f4mica da vila, mas tamb\u00e9m a preserva\u00e7\u00e3o desta arte.<\/p>\n<p>Da mesma forma, os ceramistas Chorotega da aldeia de Guaitil, na Costa Rica, continuam criando sua cer\u00e2mica tradicionalmente queimada em fornos pr\u00e9-colombianos. Algumas dessas pe\u00e7as de cer\u00e2mica s\u00e3o recria\u00e7\u00f5es dos objetos arqueol\u00f3gicos de seus ancestrais &#8211; o governo lhes fornece fotografias dos artefatos originais das cole\u00e7\u00f5es do museu nacional. Oficinas e organiza\u00e7\u00f5es que mant\u00eam este rico legado, transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis gra\u00e7as aos in\u00fameros viajantes que visitam a vila para experimentar esta viagem no tempo atrav\u00e9s da arte. As vendas da cer\u00e2mica de Guaitil tornaram-se a base econ\u00f4mica para sustentar toda a comunidade.<\/p>\n<p>O debate n\u00e3o se aplica apenas a visitantes estrangeiros em feriados &#8220;ex\u00f3ticos&#8221; &#8211; a defesa da cultura nativa em lugares como o Canad\u00e1 e os EUA \u00e9 muito necess\u00e1ria tamb\u00e9m no n\u00edvel do turismo dom\u00e9stico. Na Austr\u00e1lia, por exemplo, o turismo ind\u00edgena \u00e9 uma maneira de os australianos n\u00e3o-origin\u00e1rios ouvirem sobre os modos de vida dos abor\u00edgines e dos povos das Ilhas do Estreito de Torres. Como os povos nativos representam apenas cerca de 3% da popula\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds, os australianos n\u00e3o-ind\u00edgenas podem, sem querer, ter pouca consci\u00eancia cultural, para n\u00e3o mencionar a aus\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o. Experi\u00eancias que formam um programa de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional incluem o compartilhamento de hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de passeios, promovendo alimentos nativos, artes, m\u00fasica e dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os, a divis\u00e3o da cultura entre povos abor\u00edgenes e australianos n\u00e3o-ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de superar. Uma das principais atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas do pa\u00eds &#8211; Uluru, ou Ayers Rock, no Parque Nacional Uluru-Kata Tjuta, \u00e9 um exemplo disso. Um local sagrado para os nativos, escalar a rocha de Uluru viola sua cultura e cren\u00e7as espirituais.<\/p>\n<p>A subida n\u00e3o \u00e9 proibida. Em vez disso, as autoridades locais decidiram simplesmente educar os visitantes sobre os riscos, de acordo com os ensinamentos ancestrais de Tjukurpa, para que eles possam tomar a decis\u00e3o de n\u00e3o escalar por si mesmos. Felizmente, a abordagem foi bem-sucedida e o n\u00famero de pessoas que escalou Uluru tem diminu\u00eddo constantemente.<\/p>\n<p>\u00c9 um dilema bem conhecido pelo viajante: participar do turismo \u00e9tnico e visitar as tribos porque elas dependem diretamente dele para se sustentar ou n\u00e3o visitar, a fim de evitar mais explora\u00e7\u00e3o. De fato, em muitos casos, a alternativa para os habitantes locais ganharem a vida \u00e9 tipicamente a agricultura intensiva ou programas de assist\u00eancia governamentais ou de ONGs. Como se v\u00ea, o debate \u00e9 complexo.<\/p>\n<p>Como sempre, &#8220;fazer a coisa certa&#8221; \u00e9 uma quest\u00e3o de fazer pesquisas e questionamentos extensivos. Viajantes que desejam participar de alguma forma de turismo ind\u00edgena (que n\u00e3o seja o \u00a0envolvimento com tribos n\u00e3o contatadas &#8211; que s\u00e3o altamente desencorajadas) precisam se informar sobre a comunidade que desejam visitar e se certificar de que tarifas v\u00e3o diretamente para beneficiar os povos ind\u00edgenas. No n\u00edvel institucional: os governos precisam agir para proteger as comunidades ind\u00edgenas com a legisla\u00e7\u00e3o; ONGs com campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o; os operadores tur\u00edsticos precisam seguir um c\u00f3digo estrito de conduta.<\/p>\n<p>Existem empresas de turismo \u00e9ticas e respons\u00e1veis. Em geral, os melhores passeios s\u00e3o aqueles em que pequenos grupos ou indiv\u00edduos v\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o de pernoitar na comunidade, pois tendem a gerar uma renda mais sustent\u00e1vel. As casas de fam\u00edlia s\u00e3o uma verdadeira imers\u00e3o cultural e muito provavelmente uma experi\u00eancia para a vida inteira.<\/p>\n<p>O \u201cNext Step Thailand\u201d, que oferece turismo \u00e9tnico dentro do territ\u00f3rio das Tribos do Norte, oferece tais homestays e muito mais. Sua iniciativa \u201cShare the Dream\u201d (em Portugu\u00eas \u201cCompartilhe o Sonho\u201d) foi criada para ajudar os moradores locais a levar uma vida melhor. Atrav\u00e9s do projeto, eles arrecadam fundos para as crian\u00e7as das escolas locais e para equipamentos m\u00e9dicos b\u00e1sicos, bem como recrutam volunt\u00e1rios para ensinar Ingl\u00eas nas comunidades remotas e para ajudar a reconstruir as escolas locais. Assim, participando de um programa com eles, voc\u00ea automaticamente ajuda as comunidades locais. Eles pretendem ajud\u00e1-los a se manter independentes e manter sua singularidade, ao mesmo tempo em que possibilitam aos turistas conhecer e entender sua cultura. Da mesma forma, um encontro significativo com o povo Karen pode ser organizado com a ajuda da \u201cRickshaw Travel\u201d.<\/p>\n<p>No Territ\u00f3rio do Norte da Austr\u00e1lia, a \u201cWuddi Cultural Tours\u201d, uma operadora ind\u00edgena, tem como objetivo manter viva a cultura abor\u00edgine local e transmitir o conhecimento para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de passeios personalizados para conhecer a \u00e1rea local e conectar os locais e artefatos \u00e0s hist\u00f3rias de seu povo.<\/p>\n<p>No sul do pa\u00eds, a \u201cBookabee \u201c, 100% pertencente e operada por abor\u00edgenes, vai al\u00e9m de excurs\u00f5es \u00e9tnicas destinadas a dar uma vis\u00e3o sobre a hist\u00f3ria e cultura tradicional dos povos origin\u00e1rios da Austr\u00e1lia. Tamb\u00e9m oferece treinamento de conscientiza\u00e7\u00e3o cultural que aprimora e inspira o conhecimento dos participantes e incentiva os participantes a desafiarem seus valores e atitudes pessoais para promover uma melhor compreens\u00e3o da Austr\u00e1lia abor\u00edgine. Ver a Austr\u00e1lia atrav\u00e9s dos olhos de um \u201cprimeiro australiano\u201d fornece uma nova compreens\u00e3o e dimens\u00e3o da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Como o turismo ind\u00edgena e o desejo de experimentar a vida nativa \u201caut\u00eantica\u201d est\u00e3o crescendo em popularidade em todo o mundo, temos que come\u00e7ar a nos perguntar se as consequ\u00eancias desta pr\u00e1tica tur\u00edstica s\u00e3o mais prejudiciais do que ben\u00e9ficas. Ironicamente, quanto mais explorarmos estas culturas, mais a autenticidade procurada desaparece, e com ela uma preciosa heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Gabriela Sijer \u00e9 uma das fundadoras do <a href=\"http:\/\/www.roomsforchange.com\">www.roomsforchange.com<\/a> .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o para o Portugu\u00eas por Gustavo Pinto Durante a \u00faltima d\u00e9cada, as viagens de aventura deixaram de ser menos sobre a adrenalina e mais sobre aprendizado de outras culturas e transforma\u00e7\u00e3o pessoal. O turismo ind\u00edgena, tamb\u00e9m conhecido como turismo \u00e9tnico ou tribal, tem sido uma tend\u00eancia particularmente crescente. 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